Neste artigo
Simone de Beauvoir (1908-1986) foi uma filósofa, escritora e professora francesa, uma das principais representantes do existencialismo e autora de O Segundo Sexo, obra que fundou as bases do feminismo moderno. Entender quem foi Simone de Beauvoir é essencial para quem estuda Filosofia, Sociologia ou se prepara para o ENEM.
Se você já se deparou com a frase "não se nasce mulher, torna-se mulher" em uma questão de vestibular e ficou na dúvida sobre o que ela realmente significa, este artigo é para você. Vamos caminhar juntos, passo a passo, por uma das pensadoras mais citadas — e mais mal compreendidas — do século XX. Prometo que, ao final, você não só vai saber responder às questões de prova, como também vai enxergar o mundo com outros olhos.
Quem foi Simone de Beauvoir: a trajetória de uma pensadora
Simone Lucie Ernestine Marie Bertrand de Beauvoir nasceu em Paris, em 9 de janeiro de 1908, numa família burguesa em declínio financeiro. Essa condição foi decisiva: sem dote para um casamento "vantajoso", ela precisou estudar para se sustentar. O que poderia ser uma limitação virou o motor de uma das carreiras intelectuais mais brilhantes da história.
Ela estudou na Sorbonne, onde se formou em Filosofia. Em 1929, prestou o agrégation — o durríssimo concurso francês que habilitava ao magistério — e ficou em segundo lugar, atrás apenas de Jean-Paul Sartre. Tinha 21 anos e foi a pessoa mais jovem a ser aprovada naquele exame até então. Para você ter uma ideia do peso disso: é como se alguém passasse entre os primeiros colocados em um concurso nacional altamente concorrido, ainda na graduação.
Alguns marcos da vida dela que vale a pena memorizar:
- 1929 — aprovação no agrégation e início da parceria intelectual e afetiva com Sartre, relação aberta que durou toda a vida
- 1943 — publica seu primeiro romance, A Convidada
- 1947 — lança Por uma Moral da Ambiguidade, sua obra mais estritamente filosófica
- 1949 — publica O Segundo Sexo, o livro que mudaria tudo
- 1954 — vence o Prêmio Goncourt, o mais prestigiado da literatura francesa, com Os Mandarins
- 1986 — morre em Paris, aos 78 anos, e é enterrada ao lado de Sartre no cemitério de Montparnasse
Um detalhe que costuma surpreender meus alunos: Beauvoir foi professora de Filosofia no ensino médio por mais de uma década, em cidades como Marselha, Rouen e Paris. Ela não era uma pensadora isolada numa torre de marfim — dava aula, corrigia prova, lidava com adolescentes. Isso aparece na clareza da escrita dela.
A filosofia existencialista de Simone de Beauvoir
O existencialismo é a corrente filosófica que parte de uma ideia simples e vertiginosa: a existência precede a essência. Traduzindo: nós não nascemos com um "propósito" ou uma "natureza" pronta. Primeiro existimos, e só depois, por meio das nossas escolhas, construímos quem somos.
Isso significa que somos radicalmente livres — e, portanto, radicalmente responsáveis. Não dá para dizer "eu sou assim mesmo" e lavar as mãos. Para os existencialistas, essa frase é o que Sartre chamou de má-fé: a mentira que contamos a nós mesmos para escapar do peso de escolher.
A ética da ambiguidade: a contribuição original de Beauvoir
Por muito tempo Beauvoir foi tratada como "discípula de Sartre". Hoje, pesquisadores reconhecem que ela desenvolveu uma filosofia própria e, em vários pontos, mais consistente. A principal contribuição dela está em Por uma Moral da Ambiguidade (1947).
A tese central: o ser humano é ambíguo porque é, ao mesmo tempo, consciência livre e corpo determinado por circunstâncias. Somos sujeitos que projetam futuros, mas também objetos no mundo dos outros — presos a um corpo, a uma classe social, a um país, a uma época.
E aqui vem o ponto que Sartre demorou a admitir e que Beauvoir viu primeiro: minha liberdade depende da liberdade dos outros. Não existe liberdade individual plena numa sociedade em que outras pessoas estão oprimidas. Ela chamou de situação o conjunto de condições concretas que ampliam ou restringem as escolhas de alguém.
Pense num exemplo brasileiro: dois estudantes fazem o ENEM no mesmo dia. Um estudou em escola particular, com cursinho e internet boa. O outro concilia trabalho e escola pública, estuda no ônibus. Ambos são "livres" para escolher a carreira — mas a situação de cada um é radicalmente diferente. Beauvoir diria que falar em liberdade sem olhar para a situação é hipocrisia.
Liberdade não é fazer o que quer, é assumir o que faz
Um erro comum em redações é confundir liberdade existencialista com "fazer o que der na telha". Não é isso. Para Beauvoir, a liberdade autêntica é aquela que:
- Reconhece a própria condição concreta, sem se vitimizar nem se iludir
- Assume as consequências das escolhas feitas
- Trabalha ativamente para ampliar a liberdade dos outros
- Recusa qualquer justificativa do tipo "é da natureza humana"
O Segundo Sexo e o nascimento do feminismo moderno
Em 1949, Beauvoir publicou os dois volumes de O Segundo Sexo. O escândalo foi imediato: o Vaticano colocou a obra no Índice de Livros Proibidos, e ela recebeu montanhas de cartas ofensivas. Mesmo assim, o livro vendeu 22 mil exemplares na primeira semana na França.
A frase mais famosa está no início do segundo volume: "Não se nasce mulher: torna-se mulher."
Preste atenção no que ela está dizendo, porque isso cai em prova. Beauvoir não nega a biologia. Ela afirma que o significado social atribuído ao corpo feminino — a docilidade esperada, a vocação para o cuidado, a associação com a beleza, a exclusão da vida pública — não vem da natureza. É construído culturalmente, desde os brinquedos da infância até as expectativas sobre casamento e maternidade.
Os conceitos-chave da obra:
- A mulher como Outro — a sociedade patriarcal define o homem como sujeito universal ("o Homem", "os direitos do homem") e a mulher como o que se desvia dessa norma
- Imanência x transcendência — a mulher é historicamente confinada à repetição do cotidiano (imanência), enquanto o homem é incentivado a projetar-se em obras e carreiras (transcendência)
- Cumplicidade e opressão — em alguns casos, a própria oprimida aceita o papel por ser menos custoso; Beauvoir analisa isso sem culpabilizar, mostrando o cálculo por trás
- Independência econômica — para ela, o trabalho remunerado e a autonomia financeira são condição necessária (embora não suficiente) da libertação
Esse último ponto conversa diretamente com o Brasil de hoje. Hoje, as mulheres são maioria entre os estudantes do ensino superior brasileiro — e cada diploma conquistado é, na leitura de Beauvoir, um passo concreto de transcendência. Se você é a primeira mulher da sua família a entrar numa faculdade, saiba que existe uma filósofa francesa de 1949 explicando exatamente por que isso importa tanto.
Como estudar Simone de Beauvoir para o ENEM e o vestibular
Beauvoir aparece com frequência nas provas de Ciências Humanas e é ouro para a redação. Aqui vai meu roteiro de estudo, do mais leve ao mais denso:
- Comece pela frase-chave e saiba explicá-la com suas palavras em três linhas. Se você não consegue explicar, ainda não entendeu
- Situe historicamente: pós-Segunda Guerra, França ocupada e libertada, mulheres francesas votando pela primeira vez apenas em 1944
- Diferencie Beauvoir de Sartre. A pegadinha clássica é atribuir a ela ideias dele e vice-versa. Guarde: situação, ambiguidade e a mulher como Outro são dela
- Conecte com autores brasileiros como Lélia Gonzalez e Djamila Ribeiro, que dialogam e também criticam limites da obra
- Monte repertório para a redação: uma citação bem contextualizada vale mais que três decoradas fora de lugar
Uma dica prática de organização: estude filosofia em blocos curtos e frequentes, não em maratonas. Se você ainda não descobriu qual período rende mais para o seu cérebro, vale ler nosso guia sobre estudar de manhã ou à noite e testar por duas semanas.
Uma crítica honesta: os limites de Beauvoir
Ser boa aluna também é saber criticar quem admiramos. O Segundo Sexo parte majoritariamente da experiência de mulheres brancas, europeias e de classe média. Pensadoras posteriores mostraram que raça, classe e território mudam profundamente a vivência da opressão. No Brasil, o feminismo negro fez essa crítica com força — e trazer esse contraponto numa redação demonstra maturidade intelectual, não desrespeito.
Quanto custa estudar Filosofia no Brasil
Se a leitura até aqui acendeu alguma coisa em você, talvez valha considerar a graduação em Filosofia — seja para a docência, seja como base para Direito, Jornalismo, Psicologia ou concursos públicos.
A boa notícia é que o custo não precisa ser barreira. Pela Bolsa Click, o curso de Filosofia sai a partir de R$ 115,32 por mês, com descontos de até 80% sobre a mensalidade cheia. É menos do que muita gente gasta por mês com streaming e delivery somados.
Antes de decidir, compare valores entre modalidades e áreas com nosso comparativo de quanto custa uma faculdade EAD por curso. E se a licenciatura te interessa, dá uma olhada também no panorama de carreira e concursos em Pedagogia — as áreas conversam bastante.
Um lembrete de tutora: a filosofia mexe com nossas certezas, e isso às vezes desestabiliza. Se em algum momento a rotina acadêmica pesar demais, procure apoio. Nosso texto sobre saúde mental na faculdade traz sinais de alerta e caminhos de acolhimento.
Perguntas frequentes sobre Simone de Beauvoir
O que significa a frase "não se nasce mulher, torna-se mulher"?
Significa que o conjunto de comportamentos, expectativas e limitações associados ao "ser mulher" não decorre da biologia, mas de uma construção social e histórica. A menina aprende a ser mulher pela educação, pelos brinquedos, pela linguagem e pelas normas do seu tempo. Beauvoir não nega o corpo — ela questiona o significado que a cultura impõe a ele.
Simone de Beauvoir foi apenas seguidora de Sartre?
Não. Embora tenham compartilhado vida e projeto intelectual por mais de 50 anos, Beauvoir formulou conceitos próprios, como a ética da ambiguidade e a noção de situação, que reconhecem os limites concretos impostos à liberdade. Vários estudiosos hoje defendem que ela antecipou correções importantes ao existencialismo sartriano.
Quanto custa fazer faculdade de Filosofia com bolsa?
Pela Bolsa Click, o curso de Filosofia está disponível a partir de R$ 115,32 por mês, com descontos que chegam a 80% sobre o valor cheio da mensalidade. Os valores variam conforme instituição, modalidade e cidade, então vale simular sua bolsa antes de decidir.
Beauvoir escreveu que cada pessoa é responsável por dar sentido à própria existência. Nenhum diploma, prova ou nota faz isso por você — mas estudar amplia o número de caminhos que você consegue enxergar. Comece pelo próximo capítulo, pela próxima página. É assim que se constrói.




